
A primeira semana fora do seu país é a mais complicada. Eu cheguei em Vancouver depois de uma maratona de quase 24h de voos, aeroportos e translados. Exausto, ainda tive que procurar Mr. Low, o meu homestay father no aeroporto. Tudo bem... ele tinha se atrasado um pouco (algo muito raro para os canadenses) Foram só 15 minutos, mas para mim pareceram horas.
Ele chegou muito simpático, pediu desculpas, elogiou meu inglês e perguntou sobre minha vida. Ficou surpreso quando disse que eu era roteirista no Brasil. A pergunta seguinte foi algo que eu ouvi várias vezes durante a viagem: "quer dizer que você é famoso lá?". Não... não sou famoso. No Brasil, não é como Hollywood. Quem me dera fosse. "Mas se eu eu jogar seu nome no google eu acho alguma coisa?" Tive vontade de responder: "Se você jogar no google você acha alguma coisa sobre qualquer um..." Eu tive vontade de responder isso. Mas só disse:"Sim, talvez".
Era segunda feira, feriado de ação de graças no Canadá, 11 de outubro. Cheguei na minha nova casa. Ms. Low tinha preparado um almoço para quando eu chegasse: Sanduíche de presunto, pepino e mostarda. Com a fome que eu estava, ele desceu inteiro. Mr. Low se desculpou por não haver nenhum peru do dia de ação de graças. Eles haviam celebrado na casa de amigos.
Meu quarto era no basement da casa onde havia uma sala com TV e Wii, um banheiro, lavanderia e outros dois quartos onde moravam meus homestay brothers: o japonês Noboo e o alemão Tim.
Quarto pequeno, cama de solteiro, uma estreita janela que dava para o chão do quintal. Respirei fundo, fechei a porta e pensei: "Caralho! 4 semanas!".
Foi o tempo de Mr. Low bater na minha porta e dizer que me mostraria como chegar até minha escola. Fizemos o caminho de ônibus e skytrain. Tudo ótimo. Fácil de chegar. Voltamos para casa 15h.
Eu entrei no meu quarto e olhei para o teto. Estava me sentindo num filme. Alguma coisa entre Lost in Translation e Castaway. "4 semanas", eu pensei de novo. Que ideiazinha... Dormi.
No dia seguinte veio a síndrome de WIlson. Explico: o primeiro dia de aula na escola serve para serem expostas as regras de funcionamento e etc. Todos os brasileiros que estão começando naquele dia são reunidos em uma sala. E a palestra é dada em português. Eu olhava o rosto daquelas pessoas e via como todos estavam satisfeitos por poderem encontrar brasileiros.
Mais tarde o Edson me diria uma frase que resumia bem aquele sentimento, carregada de sotaque do interior de São Paulo: "Porra, meu. Eu tava louco para abraçar um brasileiro, velho."
O fato é que, nos primeiros dias, vocês se sente isolado, perdido num país estranho e com muito tempo ainda pela frente para voltar seguro à sua gentil pátria mãe. Sentimentos à flor da pele. E então você passa a se apegar intensamente às pessoas que aparecem e fazem você se sentir a vontade. É como Tom Hanks e a bola de volley. Veja bem, as pessoas que eu conheci não são bolas de volley, mas a velocidade com a qual você se apega é fora do comum.
Posso dar como exemplo o próprio Edson. Cara super gente boa. Em dois dias viramos melhores amigos. Em quatro semanas eu estava indo embora de coração partido e ele se debulhava em lágrimas. Conheci duas cariocas também: Aline e Luana. Em três dias, era como se tivéssemos nos conhecido a vida toda e quando elas foram embora eu senti que parte de Vancouver tinha acabado. Eu fiz um monte de outros amigos lá e espero que eles não se sintam injustiçados por não estarem neste post. Depois faço um post só sobre a galera.
As pessoas estão tão sensíveis longe de tudo que elas conhecem, que as relações de amizade construídas possuem uma intensidade extraordinária. Em 4 semanas eu devo ter feito mais amigos do que na vida toda. Ganhei pessoas para minha vida, que transformaram um naufrágio num passeio por uma cidade incrível.
Na foto: Luana, Edson, Aline e Marcelo (eu)
Porra Marceloooooooo, choreeeeeeeeeeeei, ahahhahahah... que saudades cara!!! Vc é meu ídolo, ameeei o texto, mto roteirista msmo!!! Obrigada por tuuudo!!! Aproveita ai por mimmm e nunca pare de escrever... Bjooos da eterna amiga :)
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